“Aos 20 anos, um professor disse que eu nunca seria uma boa jornalista. Três anos depois, ganhei um prêmio do Estadão/UNESCO como melhor reportagem produzida por um estudante de Jornalismo no Brasil”… pra cada não que Soraia Lima recebia, uma nova oportunidade se abria. Pra cada frase desmotivadora, mais coragem pra correr atrás dos sonhos. E assim vem sendo desde que ela tinha 9 anos de idade. Foi nessa época que ela resolveu que seria jornalista. Sim minha amiga, a entrevistada de hoje é bem decidida, mas se tiver que mudar o percurso no meio do caminho, ela não vê problema nenhum.

Soraia Lima foi minha professora na pós-graduação de Gestão em Mídias Digitais, no Senac. Lembro exatamente de quando ela entrou na sala (em 2012). Era a professora mais jovem e entusiasmada do grupo. Hoje, ela é conhecida por construir uma carreira antenada quando o assunto é tecnologia. Nessa entrevista discutimos sobre a nossa relação com a internet, sobre a importância do processo de curadoria. Saber selecionar o que consumimos, numa época de excesso de informações, é crucial para não nos perdemos na vida online. E, claro, falamos sobre tudo o que ela já fez e tem feito por aí.

.: Professora, empreendedora, jornalista, pesquisadora… Você é uma pessoa que explora ao máximo suas multipotencialidades e isso é muito bacana. Quando você descobriu que dava para viver fazendo tudo que tem vontade de fazer?
Na verdade, descobri aos poucos. A vida foi me mostrando que planos podem (e devem) ser feitos, mas que de uma hora para outra tudo pode mudar e que isso não precisa necessariamente ser algo ruim. Então, a cada plano que precisava ser reformulado, eu aproveitava, aprendia, crescia. Via como oportunidades. Por isso, nada era um impeditivo. Tinha o mundo para explorar e não deixaria que nada, nem ninguém me atrapalhasse. Fiz cursos, palestrei, viajei mundo a fora. Tive medo, fiquei insegura, mas minha vontade de voar era maior. Para sermos mulheres plenas, temos que ter liberdade para voarmos para qualquer lugar. Eu abri minhas asas, o mundo e as pessoas acolheram.

.: Conte pra gente um pouco sobre você, o que você faz atualmente e como chegou até aqui?
Sou geminiana, natural de São Caetano do Sul (SP). Gosto de falar, de ler e de escrever desde sempre. Aos 9 anos, ganhei meu primeiro concurso de redação. Isso me deu um gostinho especial e resolvi ser jornalista. Queria que minha paixão se tornasse minha profissão. Em 2003, consegui esta proeza, me formando em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Nesta mesma época, ganhei um concurso promovido pelo Estadão/UNESCO para formandos em Jornalismo. Essa menção honrosa foi um ótimo farol, norteando minhas ações. Depois disso, continuei meus estudos, fiz mestrado em Ciências da Comunicação na USP e atualmente sou doutoranda na mesma instituição. Paralelamente, me dediquei à carreira no mercado, atuando como assessora de imprensa, repórter, gerente de marketing e community manager, bem como comecei a lecionar em diferentes instituições. Hoje, tenho uma consultoria especializada em mídias digitais, sou coordenadora de cursos de pós-graduação no SENAC-SP, professora em instituições de ensino como ESPM, IPOG, Estácio e Anhembi Morumbi, e membro do conselho educacional do Comunique-se.
Escrevendo desse jeito, parece que o percurso foi fácil, mas as pessoas não poderiam estar mais enganadas. Por exemplo, para ser repórter e professora, tinha uma carga horária de trabalho de 16 horas diárias. Viagens, cursos online, cursos de línguas foram outros investimentos. Era extremamente cansativo. No entanto, valeu cada minuto. As pessoas acham que diploma não ajuda em nada. Não é necessário. No entanto, os meios para se obter um diploma levam a algo que não tem preço: o conhecimento. E isso ninguém tira de você.

.: O que te motiva?
Conhecimento. Raciocínio. Esses são fatores que me motivam. Pensar é um verbo que anda perdido na sociedade. Queremos fórmulas de sucesso, dicas, listas, tutoriais. Queremos tudo sem esforço. No entanto, nada na vida vem sem esforço. Para você ter uma boa colheita na sua vida, você tem que saber o que plantar, como e quando plantar. Tem que fazer um bom trabalho. Tem que investir. Então, conhecer novas possibilidades, desenvolver novas formas de raciocínio são formas de motivação sem igual para mim. É o que me faz acordar todos os dias.

.: Por que você faz o que você faz?
Pelas pessoas. Nunca consegui enxergar pessoas, clientes, alunos como números. Isso para mim não faz sentido. Como seres humanos, temos ansiedades, desejos, amores, medos. Resumir isso a números, é excluir possibilidades, é desrespeitoso, é limitar nossas potencialidades. Por isso, tento ao máximo fazer projetos por pessoas e para pessoas. É o que me norteia.

.: Você é uma grande pesquisora e está sempre com a visão no futuro. Mas esse futuro é algo que intriga. Ray Kurzweil, uma das mentes mais brilhantes da atualidade, disse recentemente: “A velocidade de mudança que vivemos é tão grande que em 100 anos do século 21, vamos ter 20 mil anos de progresso.” E o catalisador dessas mudanças é a tecnologia. Isso implica em mudanças comportamentais, nunca foi tão importante ser flexível e curioso. Na sua opinião, o que é preciso para compreender o mundo em que vivemos?
Para compreender este mundo, não é preciso entender de tecnologia. É preciso entender as pessoas. Tecnologias e ferramentas mudam com uma frequência quase desanimadora. Todo dia temos uma novidade. Tentar ficar por dentro de cada produto, ferramenta, tecnologia, é como ficar enxugando gelo. Por isso, precisamos entender pessoas, desenvolver personas, trabalhar netnografia, etnografia. Compreender quem são aqueles com quem dialogamos. Somente assim conseguiremos tomar decisões de maneira mais assertiva e humana.

.: Se tem algo que não dá pra deixar de ter – e alimentar – nos dias atuais é o ‘pensamento crítico’. Com tanta informação e mudança, é preciso questionar o que é relevante de verdade, é preciso saber o que consumir online. As nossas timelines não têm fim, o FOMO (Fear of Missing Out) é uma constante… Como você faz a curadoria dos conteúdos que consome? E que redes você consome que agregam na sua vida? Quais os perfis que você curte?
Há várias ferramentas que me ajudam a fazer curadoria e a ter acesso a quem faz uma boa curadoria. Utilizo o Google Trends, Think with Google, LinkedIn, Twitter, Klout e Medium para identificar tendências na produção de conteúdo e planejamento de estratégias digitais. Acompanho e participo de grupos em diferentes ambientes – o que inclui grupos de WhatsApp, por exemplo. Também invisto muito em leitura de livros e artigos científicos. Manuel Castells e Henry Jenkins são peças fundamentais para quem quer entender do contexto atual. Além disso, gosto muito de páginas como Techcrunch, Social Media Week, The Huffington Post, The Next Webk, IBPAD. Eles me situam sobre as novidades das mídias sociais. Por fim, utilizo a Agência Lupa, o Meio Jornal e o Nexo Jornal para me manter informada sobre o dia a dia da sociedade. Enfim, são 24 horas antenada para tentar ficar a par do que acontece no cotidiano – do ponto de vista pessoal e do ponto de vista profissional.

.: 3 coisas que fazem de você uma mulher do futuro.
Paixão. Dedicação. Planejamento.

.: Uma grande lição que fez de você a mulher que é hoje {que você aprendeu e pode compartilhar}.
Aos 18 anos, me falaram que era perigoso viajar sozinha. Vinte anos depois, venho aqui para avisar que viajei para seis países e mais de 10 cidades completamente desacompanhada e estou viva para contar a história. Aos 20 anos, um professor disse que eu nunca seria uma boa jornalista. Três anos depois, ganhei um prêmio do Estadão/UNESCO como melhor reportagem produzida por um estudante de Jornalismo no Brasil. Aos 24 anos, me disseram que eu nunca seria professora. Neste mesmo ano, consegui meu primeiro emprego como professora e passei no processo seletivo para mestrado na USP. Poderia contar outras tantas histórias. Mas acho que não é preciso.
Cada não, cada julgamento, cada preconceito me desafiou a ser melhor, a lutar, a ir além do óbvio. Porém, essa caminhada não me fez perder o interesse ou a fé na humanidade. Assim, sempre que posso, ajudo pessoas. É a minha maneira de seguir em frente e apoiar todos que persistem em suas caminhadas pessoais.

.: Que conselho você dá para a mulher que está te lendo e quer ter uma vida com mais propósito <3 {mas que por algum motivo, não sabe como fazer isso}
O que desejo é que as mulheres entendam que elas podem chegar onde quiserem. Não encarem o NÃO como um impeditivo. Encarem como um degrau. Subam até onde conseguirem. Sigam até onde quiserem. Saibam quando mudar e começar de novo. Riam, chorem. Acima de tudo, aprendam. O tempo é muito curto para lamentações e regras. Ousem. O mundo é seu e, se não for por qualquer motivo, conquiste-o!
Não sabe como fazer isso? Comece com pequenos planos. Aumente gradativamente. Chegará um dia que seus planos revelarão caminhos, que, por sua vez, mostrarão pessoas, que resultarão em projetos maravilhosos.

.: Como você deixa sua marca no mundo? {e de quebra deixa ele melhor}
Abraçando. Abraços literais e abstratos. Abraçando causas. Abraçando pessoas. Abraçando projetos. Para mim, não tem meio termo. Ou abraço de vez o que acredito, o que eu quero, ou simplesmente deixo partir. É mais sincero, é mais digno. Assim, se você está lendo esta entrevista, sinta-se abraçado.

3 Lições que aprendi
Mesmo que você só tenha um limão, ainda dá pra fazer uma limonada. Os ‘nãos’ que a gente leva, as pessoas que nos desmotivam, devem ser vistos como estímulos. Não desanime de buscar seus sonhos se as pessoas não te apoiarem. Só depende de você conquistar o que quer.

Dedicação e paixão resultam na melhor combinação de todas: construção. A Soraia chegou num patamar alto pra área dela porque sabia o que queria e onde queria chegar. É importante você ter em mente o que quer alcançar também.

Não tenha medo de nada, tudo acontece por alguma razão.

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