… Não acho que propósito seja uma profissão, uma tarefa, um negócio… Pra mim, é você observar sua vida, o que você quer e ir buscando cada vez mais isso, é construção, não é linha de chegada…

…”Tô aqui trabalhando a madrugada inteira”… Quantos amigos a gente não vê fazendo isso? E todos acham isso lindo. Isso não é legal porra nenhuma! Bonito é você se organizar para trabalhar 6 horas por dia…

…Quando você vive um burnout, você acha que não faz o suficiente, você acha que tem que fazer mais, você acha que tudo depende de você… É uma pilha entrar nesse modo de urgência…

Esses são apenas alguns trechos que, provavelmente, você vai querer levar desta entrevista. Que é, sem dúvida, uma das entrevistas que + me fez refletir durante toda a minha vida de jornalista até agora.

Sempre tem alguém que nos inspira a sermos pessoas melhores. Rafaela Cappai é a mulher que me inspirou a correr atrás de muita coisa. É a personificação do que eu acredito ser uma mulher do futuro. Se você acompanha a Little, sabe que já falamos da Rafa em outros momentos e o quanto ela é importante pra mim.

Se você conhece e acompanha a Rafa, sabe que empreendedorismo é sempre a plavra-chave das conversas com ela. Mas, nesta entrevista, ela compartilhou um dilema pessoal chamado ‘síndrome de burnout’. Contou como foi esse processo e tudo o que aprendeu – e aprende – com isso. Comentou sobre os planos para o futuro e disse o que entende por ‘propósito’.

De todas as entrevistas feitas para essa série, essa, até agora, foi a única realizada presencialmente. Em um diálogo sincero e cheio de sentimento, Cappai mostra um lado que nem todo mundo conhece, mas que muitos podem se identificar. Espero que você leia com carinho e atenção.

.: A mulher mais canivete suíço que eu conheço tem uma paixão que ainda não colocou em prática?
Não que eu não tenha vivido, mas não com intensidade que eu quero que é viajar pelo mundo. Quando eu era criança, dizia que meu sonho era ser correspondente internacional porque eu via que era uma forma de trabalhar e viajar. Quando a gente morou em Londres, conseguiu experimentar um pouco disso, porque no período de dois anos, visitamos mais de dez países. Estamos planejando criar um projeto agora em 2018 de viagens. A ideia é começar por volta de agosto. Quero mostrar pessoas que empreendem com criatividade e que geram impactos positivos pelo mundo. Ainda estamos pensando nesse projeto, mas a ideia é tirar isso do papel.

.: O que te traz mais felicidade no seu trabalho?
Realizar. Transformar uma ideia em algo palpável é meu maior tesão. E as linguagens são múltiplas, desde um projeto interno a um espetáculo de dança, por exemplo. E quando eu tô com uma ideia, ela me captura, eu só penso nisso. Quando eu vejo, já estou apaixonada por fazer aquela ideia funcionar. E se eu não colocar no mundo, não me sinto realizada. Me traz felicidade realizar ideias, fazer acontecer.

.: Porque você faz o que você faz? {queremos saber as motivações que te fazem levantar dia a dia}
Eu tenho pensado muito sobre isso. Meu processo pra qualquer coisa que faço é observar, refletir sobre aquilo que observo e deixar essa reflexão me mudar, e quando eu compartilho eu mudo mais um pouquinho e de alguma forma me conecto às pessoas, e elas podem mudar ou não. Meu processo é sempre esse de criar uma visão a partir do que eu tenho aqui. Isso pode ser sobre qualquer coisa: desde empreendedorismo até alimentação saudável, por exemplo. Eu observo, penso sobre aquilo e finalizo esse processo quando compartilho. Ficou muito claro pra mim isso no Galáxia {evento aberto para empreendedores que a Rafa realizou em novembro de 2017}. Eu vivi o processo de burnout ano passado.

.: … Que pouca gente sabe?
Sim, estou começando a falar disso agora. Mas no meio do processo eu não queria compartilhar. Porque eu não estava dando conta de lidar comigo mesma.

.: Como você descobriu?
Fui em uma médica em 2016 e ela falou: ‘você precisa parar, precisa tomar antidepressivo, isso e aquilo’, mas foi uma médica errada, porque foi uma médica de emagrecimento. E além do antidepressivo, ela me mandou tomar remédio inibidor de apetite, injeções e, na loucura, sem conseguir pensar, mergulhei naquilo. Voltei na médica e a assistente dela começou a me furar toda com injeções. E nessa hora eu pensei: o que eu tô fazendo? Eu vim aqui pra ser cuidada e tô me deixando ser martirizada desse jeito?! Tá errado. Voltei pra casa, refleti, liguei pra médica e disse que queria meu dinheiro de volta. Não era esse caminho que eu queria seguir.

Foi ali que descobri que estava doente. Soube que se chamava burnout quando comecei a pesquisar para compartilhar. E meu ciclo sobre esse tema fechou e comecei uma nova fase quando falei abertamente disso no Galáxia. Depois da palestra, umas dez pessoas vieram falar comigo chorando e dizendo “obrigada por falar disso porque eu não sabia que era isso que eu estava vivendo, e agora eu sei”.

Eu também não sabia, só fui saber quando tive informação. Então, pra mim, informação é uma coisa muito valiosa e, se de alguma forma, essa informação foi capaz de mudar minha vida, então eu preciso falar disso.

E isso é natural pra mim, mas, ao mesmo tempo, é um conflito, porque eu não sou uma pessoa extrovertida. As pessoas acham que sou, mas não sou. Sou uma pessoa que precisa do meu tempinho, internalizando as coisas, eu preciso disso. Às vezes, tenho mais informação pra compartilhar do que estou pronta pra compartilhar naquele momento. Mas é isso, eu reflito, vejo, observo, penso a respeito daquilo e, por fim, preciso falar, compartilhar. E essa minha profissão é maravilhosa porque me permite falar de tudo isso.

.: O que você fez quando descobriu que estava nesse processo? O que te ajudou?
Comecei a pesquisar sobre o tema e conversar com pessoas pra entender mais e pra saber se outras pessoas estavam vivendo isso também. Percebi que muita gente está vivendo burnout sem saber. Comecei a atacar o problema em 360 graus e parei de achar que uma médica sozinha com um monte de remédio ia me ajudar a resolver.

Se eu falar que uma pessoa só me ajudou, é mentira, tem muita gente nesse processo. Fiz vários cursos sobre temas relacionados, passei a fazer meditação, voltei a me alimentar bem, porque eu estava me alimentando muito mal, voltei para o Crossfit, a fazer atividade física e a exercitar meu corpo, reduzi minha carga de trabalho, minimizei. Não o trabalho, mas as horas sentada em frente ao computador.

E não é uma coisa que eu sinto que sai, é uma escolha diária, é todo dia. Porque a pilha do burnout não é só uma questão física, é uma pilha emocional. Quando você vive um burnout, você acha que não faz o suficiente, você acha que tem que fazer mais, você acha que tudo depende de você… É uma pilha entrar nesse modo de urgência. Se você analisar nossos antepassados, eles entravam nesse modo quando enfrentavam um leão, mas não ficavam 24 horas nesse modo. E a gente, hoje em dia, vive assim. Achando que tem que escutar coisas do tipo: ‘vai lá, se você não conseguiu ainda é porque você não está colocando energia suficiente’. São essas as mensagens que a gente escuta todo santo dia. E estudando, descobri que 72% dos brasileiros são afetados por estresse no trabalho, e do ponto de vista do burnout, 32%. E as pessoas não sabem que isso é depressão, trata-se de uma síndrome depressiva.

E em algum nível, vocês, como empreendedores, estão. Olha só as fases:

1ª – É a necessidade de se afirmar, o discurso é: vou entrar num curso de empreendedorismo, vou abrir uma empresa. Caramba, eu dou conta.

2ª – Dedicação intensificada. Você começa a viver para o negócio.

3ª – Descaso com necessidades pessoais: comer, descansar, dormir, sair com os amigos começa a perder sentido.

4ª – Recalque de conflitos: você percebe que algo não vai bem, mas não olha para o problema. ‘Tô trabalhando 12 horas por dia, mas ok, eu aguento’.

5ª – Reinterpretação dos valores: isolamento, fuga de conflitos.

6ª – O que antes tinha valor sofre desvalorização: lazer, casa, amigos. A única medida de autoestima passa a ser o trabalho. ‘Então, eu sou legal se eu realizo e eu não sou legal se não realizo’.

7ª – Negação de problemas: todos são completamente desvalorizados e tidos como incapazes.

8ª – Contatos sociais são repelidos.

9ª – Recolhimento: aversão a grupos, reuniões, encontros e comportamento antissocial. Eu cheguei facilmente aqui. Na verdade, eu cheguei no 13.

10ª – Mudanças evidentes de comportamento: perda de humor, não aceitação de comentários que antes eram tidos como naturais. Você passa a ficar explosivo.

11ª – Despersonalização: ninguém parece ter valor, a vida se restringe a hábitos mecânicos.

12ª – Vazio interior, sensação de desgaste, tudo é complicado, depressão, exaustão e a vida perde o sentido.

13ª – A síndrome do esgotamento profissional. Esse a pessoa precisa de fato de um médico pra sair disso.

Imagina, eu tinha tudo. Tava nessa casa maravilhosa, tinha meus alunos e acordava pensando que não via graça em nada. E como essa síndrome não é a depressão que você fica na cama, eu continuava realizando, mas estava desmotivada. Cheguei a questionar: como eu que falo de amor ao trabalho vou falar disso agora? Será que eu não gosto mais do meu trabalho? O mais difícil não foi viver do burnout, foi achar que eu tinha que ser perfeita durante o burnout.

.: Consigo ver que eu, e quase todo mundo que eu conheço, está mesmo em um nível de burnout.
Pra mim, são 3 camadas que nos fazem entrar nisso:

1) O mundo: que é volátil, instável, incerto e ambíguo. O mundo, hoje em dia, é diferente do que há 30 anos. Tá todo mundo sentado no pudim.

2) Estamos empreendendo. Empreender significa volatilidade também. Porque você começa com aquela fase de fazer acontecer. Uma empresa não é um objeto estático, é um objeto em movimento.

3) O crescimento: a gente tinha poucos contatos pra conversar. E hoje? Tá tudo instável.

Se as pessoas não estão empreendendo, estão tentando manter seus cargos, e vivem com aquela pressão: ‘depende de mim, depende de mim’. Precisamos repensar isso. Não sei a solução, não sei mesmo, mas precisamos falar disso. Não se fala disso porque a depressão é encarada como um estigma fudido, de gente que não tem gana, força. E o burnout é a ‘síndrome de campeão’.

.: Porque você só entra no burnout quando está exausto, por isso, as pessoas meio que ‘glorificam’.
Exato! Como se fosse bonito entrar em burnout! E aí o workaholismo é vangloriado. “Tô aqui trabalhando a madrugada inteira”. Quantos amigos a gente não vê fazendo isso? E todos acham isso lindo. Isso não é legal porra nenhuma! Bonito é você se organizar para trabalhar 6 horas por dia. Ninguém fala disso e eu estou assumindo esse bastão mais ainda. Eu já assumia, mas sem ter chegado no fundo do poço. Mas eu cheguei, e isso me preparou melhor pra poder ajudar outras pessoas que estão nesse processo.

.: Então, a Rafa de 2018 está bem diferente.
Eu acho que comecei a entrar nesse processo em 2014 quando eu estava muito ‘sangue no olho’, e comecei mesmo a sair disso no começo de 2017. A mensagem gratuita do Decola {curso da Rafa para quem quer empreender de forma criativa e inovadora} de 2017 já tinha um pouco disso, de respeitar o empreendedor acima de tudo. Mas agora eu quero ser uma desaceleradora e não uma aceleradora. Quero assumir essa bandeira mais ainda.

E a minha prima que foi uma das pessoas que me ajudou nesse processo, eu sempre a questionava: ‘Re, mas por que isso tá acontecendo?’. Até que entendi que é essa ‘bolha’ psicológica de ‘tudo depende de você’, ‘ou você faz dar certo ou a culpa é sua’. Eu entrei nessa bolha, nem dormia direito mais. Precisei construir cada tijolinho da minha vida de novo: sono, alimentação, atividade física, tempo pra mim… Todos nós sabemos que essas coisas são importantes, mas o quanto a gente faz isso no dia a dia também é.

.: 3 coisas que fazem de você uma mulher do futuro.
De alguma forma eu já nasci olhando para frente. Recentemente, todo mundo na Espaçonave fez um teste de talentos do Gallup, esse teste é muito legal e foi baseado em um livro chamado ‘Now, Discover Your Strengths’. Até então, pra mim, era normal pensar no futuro. E aí a gente fez e minha irmã, a Jú, {Juliana Cappai é um dos braços direitos da Rafa, ela também faz parte da equipe da Espaçonave} falou: ‘tá claro, um dos seus talentos é pensar no futuro. Porque eu não penso no futuro’. Nessa hora, até questionei: ‘como assim você não pensa no futuro?’ E ela: ‘não, não é uma coisa que eu tenho’.

Eu achava que era normal olhar pra frente. Quando criança eu era apaixonada por ficção científica, sempre gostei muito. Eu tento olhar para o presente, mas meu foco é pensar: pra onde a gente está indo?

Eu sou uma pessoa bem tecnológica, sempre ligada em apps e gadgets. Sou bem ligada no futuro nesse sentido, mas não deixo a tecnologia me engolir, uso como uma catapulta pra viver bem e tem funcionado muito bem.

Sou uma pessoa que tenta se manter empática. Se a gente não for empático, a gente não vai conseguir viver. Acho que essa é uma habilidade muito do futuro: empatia, criatividade, esse desejo de preservar o que é humano diante de tanta tecnologia.

.: Que conselho você dá para a mulher que está te lendo e quer ter uma vida com mais propósito e felicidade <3 {mas que por algum motivo, não sabe como fazer isso}?
Cara, eu falaria: pare de procurar ‘propósito’. Ele acaba vindo! Mas quando a gente fica com esse radar ligado, fica pesado, sabe?! A gente não escolhe propósito, a gente não tem só um propósito.

Propósito é a gente ouvir o que a gente quer e tentar construir uma vida com mais disso. A Espaçonave {empresa da Rafa} é uma das ferramentas das quais eu exercito propósitos, mas eu não me prendo achando que é uma coisa fixa. Não acho que propósito é uma profissão, uma tarefa, um negócio… Pra mim, é você observar sua vida, o que você quer e ir buscando cada vez mais disso, é construção, não é linha de chegada.

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