02.05.2020
Mercado dos Influenciadores

A era da ostentação acabou

Há uma semana, um dos assuntos mais discutidos nas redes sociais foi a festinha na casa da influenciadora Gabriela Pugliesi. Que, mesmo em quarentena, mesmo tendo sido infectada pela Covid-19, resolveu ser a hora para reunir alguns amigos em casa e mostrar isso nos stories com frases como “foda-se a vida”… Em tempos como os que estamos enfrentando, somado a outras posturas que nasceram por conta da internet, como a cultura do cancelamento, isso não seria deixado de lado.

Quem acompanhou a repercussão viu que a internet pautou esse assunto e cobrou explicações. Cobrou uma postura, não só da influenciadora (e dos amigos influenciadores presentes), mas de TODAS as marcas que tinham, até então, ações com ela. Na segunda-feira (dia 27/04) , 11 das 15 marcas já tinham se manifestado rompendo qualquer vínculo e suspendendo parcerias. A própria Gabriela, divulgou em seu perfil no Instagram um vídeo se desculpando. Um dia depois, devido à pressão,  optou por excluir a conta no Instagram e, como dizem membros da sua família e amigos, segue refletindo…

Mas esse texto não é para falar da Gabriela, e sim da era de influenciadores que prega uma vida perfeita, “mara” e longe da realidade, principalmente, das pessoas do nosso país. É para falar de posicionamento, coerência e de como estamos financiando um sistema superficial.

Não sei vocês, mas estou acompanhando muitos influencers passarem a quarentena como se nada estivesse acontecendo no mundo. Continuam seguindo seus fluxos de conteúdo normalmente. Em mim, gera um incômodo, um distanciamento. Como profissional que atua diretamente com posicionamento de marcas, avalio: cadê a empatia, a responsabilidade?

Nos últimos anos, esses influenciadores tão famosos, que até pouco tempo estavam em capas de revista mostrando seus números altíssimos, se transformaram em grandes vitrines de publicidade. O conteúdo, em contrapartida, ficou cada vez mais vazio. Claro, jamais podemos generalizar. Mas se pegarmos a lista dos que possuem maior destaque e relevância no Brasil, poucos se salvam. Nos últimos sete dias, observei o conteúdo de 10 influenciadores que ilustraram capas de revista, possuem milhões de seguidores e cobram alto por suas ações. A rotina de todos é tão parecida que a sensação era como assistir ao mesmo filme: começa com um “Bom dia, amores”… Mostra a roupa na frente do espelho, entram as publis, publis, publis… No outro dia, tudo exatamente igual.

Essa discussão não é nova, mas, nas últimas semanas – justamente por conta de como estamos vendo os influenciadores se comportarem – explodiu na imprensa gringa. No Brasil, precisamos falar mais sobre o assunto.

Nesse sentido, trago 03 reflexões:

>> A era da ostentação acabou

Queremos influenciadores que mostrem uma vida real e usem sua voz e seus posicionamentos para discussões úteis e relevantes. Não me interprete mal, não é que não pode look do dia, rotina de skincare… Tudo pode! Mas o que essas pessoas agregam ALÉM DISSO? Como elas se manifestam? Que conteúdo útil elas geram?

>> O seu follower funciona como um sistema de financiamento

Tenho muitas questões com relação à cultura do cancelamento. Mas é preciso deixar claro que o seu follower funciona como um sistema de financiamento. Quais as marcas que você está dando ibope, seguindo, vendo stories? Você precisa valorizar mais o seu follow, meu amigo. Enquanto uma dúzia de influenciadores têm taxas altíssimas e pouco conteúdo de valor (ou apenas um conteúdo que induz ao consumo infinito), tem tantos pequenos influenciadores com um conteúdo fantástico, lutando por um lugar ao sol.

>> As marcas precisam aprender a investir em quem está alinhado aos seus valores e não em quem tem maior número de seguidores.

Pra mim, um grande problema está nas marcas. Muitas não pensam no óbvio: em quem vamos investir, aquele influenciador que não é tão grande, mas tem um conteúdo alinhado aos nossos princípios, ou aquele que tem uma base enorme? Marcas, acordem. A reputação de vocês também está em jogo.

Calma, senta aqui, tem mais (e é importante)

Esse artigo gera muitas questões e resolvi perguntar para a Greice Piacini, profissional referência em Branding, a opinião dela sobre o assunto. “Vivemos na cultura do cancelamento, mas precisamos entender que ninguém é perfeito e isso faz parte do jogo, somos humanos. Entretanto, como lidamos com isso e o que faremos a partir desse erro é que vai determinar se continuaremos sendo relevantes para as pessoas ou não. Dito isso, acho que, no caso da Gabriela Pugliesi, existiram dois fatores importantíssimos que sinalizaram que a atitude dela não foi somente um erro, o que gerou a perda da sua credibilidade frente a pessoas e marcas. Primeiro ponto: empresas contratam influenciadores pela força da sua marca pessoal, geração de identificação com as pessoas e princípios que eles defendem. Isso é construído em cima de pilares, valores e crenças, que são imutáveis, pois todo o posicionamento está construído em cima disso. A Gabriela Pugliesi sempre defendeu o bem-estar e a saúde. Essas sempre foram suas bandeiras e seu estilo de vida. E aí que vem o problema, sua atitude foi totalmente incoerente com o que pregava e gerou a perda de confiança da sua marca, fazendo as pessoas e patrocinadores questionarem toda a sua narrativa”.

Pois isso que discurso por si não se sustenta. A autenticidade (que tanto falo por aqui) está relacionada aos nossos valores e, logo, à nossa conduta. “O segundo ponto que potencializou ainda mais essa crise é justamente o momento que estamos vivendo, no qual as pessoas estão justamente lutando por suas vidas e a saúde do país é muito preocupante, sendo o isolamento social uma das nossas maiores armas contra o vírus. Nesse momento, além de ferir os valores da sua marca pessoal, ela feriu um valor coletivo e ainda prestou o desserviço de incentivar aglomerações desnecessárias. Influenciadores precisam ter responsabilidade com suas palavras e atitudes, digamos que “foda-se a vida” não foi a melhor frase a ser dita nesse momento e impactará muito no futuro da marca pessoal da influencer”, reforça. 

Fim da bolha

Eu realmente acredito que essa bolha que nós mesmos sustentamos, de influenciadores perfeitos, com vidas perfeitas onde tudo é festa, está com os dias contados. Mas depende de nós isso se concretizar. Ser influenciador não é propagar ostentação. É preciso consciência, coerência e realidade.

Em contrapartida, vejo uma leva de bons influenciadores que falam das coisas que gostam, fazem publis, mas são conscientes, trazem reflexões pertinentes e usam seus posicionamentos de forma verdadeira para falar sobre suas bandeiras. Carla Lemos é uma das minhas favoritas (@modices). Também sou apaixonada pela Luiza Brasil (@mequetrefismos). Veja, as bases de ambas não são a metade do que a Gabriela Pugliesi tem, mas o conteúdo delas conecta. E é isso que importa.

Que conteúdo queremos consumir daqui pra frente?

Você pode questionar: mas Ká, o propósito da Gabriela Pugliesi é outro, é mostrar o estilo de vida dela. Ok, mas isso por si só se sustenta? Gente, o mundo tá numa louca transição. E qualquer perfil, de qualquer pessoa, que queira mostrar perfeição vai gerar distanciamento. Não é só a Gabriela Pugliesi, TODOS precisam repensar. 

Não significa que ninguém tem que ficar lamentando o tempo todo, falando só sobre Covid-19, o que queremos é consciência! Ensinei para meus alunos uma técnica que usamos na criação de conteúdo aqui na Little, temos filtros e questionamos se o conteúdo que estamos gerando é responsável, empático, humano, ágil e efetivo… É preciso entender que estamos no Brasil, galera, não moramos na Suíça. Encarar a quarentena como férias é privilégio para poucos. “Penso que ser influenciador não é somente mostrar produtos, mas ter algo para acrescentar na vida das pessoas. Vejo que nos conectamos muito mais com quem fala sobre suas dificuldades, desafios e erros, como influenciador e como marca, do que aqueles que mostram uma vida perfeita de constante felicidade que, na verdade, não existe. Essa pandemia reforçou ainda mais isso. As prioridades das pessoas mudaram e isso não pode ser ignorado”, finaliza Piacini. Não pode ser ignorado mesmo.

Tá na hora de fazer uma faxina aí

O poder está todinho na sua mão, aprenda a fazer uma curadoria sobre o que você consome nas redes sociais. Quem você segue? Por que você segue? O que agrega? Você não precisa “cancelar” e muito menos “atacar” ninguém, mas você tem o poder de continuar ou não seguindo.  Questione mais as posturas. Questione mais as marcas. Do mesmo modo que a era da ostentação está por um fio e os influenciadores precisam aprender a se virar, as marcas precisam ser mais conscientes em quem investem. Além disso, onde você investe seu tempo quando o assunto é rede social? Ou melhor, em quem? Em quem te ajuda a pensar mais, a ter boas ideias? Ou quem te gera incômodos e, muitas vezes, te faz até desejar uma vida que não existe?

Uma revolução pode começar agora e você é o protagonista dela.

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