Roupas, roupas e mais roupas. Seu armário está lotado, você vive comprando e sempre solta aquela frase que ‘não tem nada pra vestir’. Se esse for o caso, essa entrevista pode te ajudar a repensar um pouco sobre o assunto.

Desde o começo dessa série, eu pensei em falar um pouquinho sobre a Vivi pra vocês. Nos conhecemos em um evento de um curso que fizemos juntas. Papeamos e decidimos fazer um exercício proposto por uma palestrante do evento. Essa atividade consistia em contar um segredo muito íntimo para a outra pessoa {era a primeira vez que a gente se via/falava na vida} e ela me contou da compulsão que teve por compras. E como isso quase colocou tudo a perder na vida dela. Foi um relato forte, detalhado e emocionado.

Dizem que é quando a gente se afunda, que a gente se acha. Que o autoconhecimento parte, muitas vezes, do ato de ‘se perder’. Acredito muito nisso. E foi justamente o que aconteceu.

Sabe o trecho: …’levanta, sacode a poeira. Dá a volta por cima.’… É perfeito pra essa história.

Para se livrar do problema, ela encarou e aprendeu sobre ele. De administradora de empresas para consultora de estilo. Ela foi estudar moda, consumo e tudo o que envolvia esse mercado. Mergulhou profundamente na raiz da questão. Foi assim que descobriu que a sua missão era ajudar as pessoas a não serem escravas da moda, a se vestirem com propósito. Desde então, acompanho a carreira dela. Do comecinho mesmo.

Além de levantar diversas bandeiras, a Vivi virou referência quando o assunto é armário cápsula. Tudo isso começou com uma experiência libertadora de passar 10 dias com 18 peças. A experiência deu início a um novo desafio: mudar radicalmente a nossa relação com o consumo. Hoje, o trabalho que ela faz é diferente de tudo o que você já viu por aí. Nessa entrevista ela mesma te conta por quê.

Aliás, essa entrevista vai muito além de te ajudar a entender como se vestir com propósito. A Vivi compartilhou lições cruciais que aprendeu nesse processo de ‘descobrir o que gostava de fazer’, de ‘empreender’ e de ‘se diferenciar’. Também entendeu que, pra viver nesse mundo doidão que a gente vive, é preciso ter algumas habilidades do futuro 😉 vem saber quais.

.: Você é uma consultora de estilo totalmente diferente porque foca em outros aspectos. Explique seu trabalho, Vivi.
A minha consultoria, acima de tudo, foca no propósito. Pra mim a melhor definição de propósito é a seguinte: é o que lhe é próprio. Então eu ajudo os meus clientes a se enxergarem mais, a pararem mais do que só um minuto e olharem em primeiro lugar para si, para então conseguirem dizer ao mundo quem são através do que vestem.

Alguns falam que é sobre um verdadeiro caminho de autoconhecimento, eu concordo, mas porque não um caminho de reencontro. E eu amo poder proporcionar esse reencontro de cada cliente consigo mesmo.

Por isso, estilo com propósito.

.: A gente caminha pra uma era com conceitos mais minimalistas, onde ‘menos’ realmente é ‘mais’. Você vai de encontro a essa linha quando fala do armário cápsula, que aliás é uma forte bandeira sua. Explique um pouco sobre esse conceito pra gente.
Eu acredito muito nisso, porque eu acho que não teremos outra alternativa, costumo dizer que não existe jogar fora, o lixo ou o excesso pode sair da sua casa, mas vai pra algum lugar. Mas eu também entendo que para mim “é fácil falar” vamos dizer assim, já que eu já fui uma consumista e tanto! Tive problemas com compulsão por compras – fonte de muita preocupação para a minha mãe, inclusive…

É mais fácil desapegar quando você já foi apegado entende? Eu já tive muito e eu acredito que por isso sei do que eu não preciso. Foi um caminho grande até poder dizer com verdade “as melhores coisas da vida não são coisas”, vindo do fundo do coração.

Até me dar conta de que não precisava de tudo aquilo e de que todo excesso esconde uma falta, foi um longo caminho! O start veio quando fiz o meu primeiro curso de formação em Consultoria de Imagem e Estilo Pessoal, minha professora trouxe uma prática de mercado de parceria entre consultoras e lojas, para incentivar o consumo, isso me chamou a atenção e fiquei pensando nisso meses e meses após o término do curso, quando levava uma cliente à alguma loja me sentia muito mal! E passei a avaliar o porquê daquilo, se era uma prática comum no mercado, porque eu me sentia tão mal?

A carapuça serviu… eu tinha problemas com esse ato, COMPRAR. Eu quase esvaziei meu guarda-roupa, mas daí enchi ele de novo, com mais coisas. No dia que gastei perto de R$ 2.000,00 em uma loja de departamentos e escondi de mim e do meu marido chorei horrores sozinha, refleti, pensei muito e foi o meu clique! O que não quer dizer que eu parei de comprar magicamente!

Eu fiz um blog – que nem existe mais – me propus desafios e entendi que seria um passo de cada vez. Fiz uma experiência como o meu próprio armário. Usei 18 peças por 10 dias e não morri, pelo contrário, eu amei. Devorei leituras e mais leituras sobre o tema, pra me entender.

Sai de mais de mil peças no meu guarda-roupa para uma média de 70, acaba oscilando porque ganho bastante coisa. E já estou no momento de trocas de peças no guarda-roupa.

Então, essa é sim uma bandeira, não só pelo meio-ambiente, mas pela evolução do pensamento do consumo em si, amo quando eu levo para as pessoas um questionamento, acima de tudo de reflexão sobre o que realmente precisamos na vida. Já recebi muitos comentários assim que contam que eu faço as pessoas refletirem e questionarem. Gosto de colocar a pulga atrás da orelha e mudar um ato apenas… de provocar a onda. Afinal foi assim que comecei, com um pequeno passo.

.: Você é ume exemplo vivo de que é possível viver com poucas peças e saber reaproveitá-las. Qual a dica que você dá pra quem quer aprender a viver assim também? Como é possível e qual o seu critério para comprar novas peças?
Primeiro, planejamento. Um guarda-roupa planejado faz toda a diferença, eu digo que poucas peças aleatórias não constroem nada! É como se a gente pensasse no guarda-roupa como um quebra-cabeças, cada pecinha ali tem que ter muita vida, muita utilidade, além de muito amor envolvido. Peças “meia-boca” que eu apenas gosto, não servem. Peças compradas apenas porque estavam em promoção ou foram uma pechincha não ajudam muito.

Tudo tem que funcionar. Daí esse é o meu critério. Cada peça que eu compro eu penso e avalio muito! Faço mil looks na cabeça com ela antes de levar e ainda pergunto na loja se troca e em quanto tempo, porque ainda testo quando chego em casa.

Além, claro de avaliar a qualidade da peça, tecido, costura, caimento. E prefiro comprar de pequenos produtores e lojas brasileiras. São critérios para mim.

Ou seja, é um investimento de tempo na compra que eu não vou precisar fazer na hora de vestir, porque eu vou ter pensado muito antes. A última compra que fiz – uma blusa – passei 3 horas no shopping, provei várias peças, fotografei. Fui almoçar, voltei na loja, provei as melhores de novo e daí sim escolhi. Acredite, vale a pena!

 

.: Quando você descobriu que ajudar as pessoas a encontrarem o seu modo de vestir era uma de suas paixões? Você acha que isso veio da compulsão que você teve por compras?
Minha avó me conta que isso veio desde a infância, eu era a menina da turma, desde novinha, que ajudava as bonecas das outras a se vestir, vamos dizer assim… e depois vieram a ajuda para as amigas, minha mãe não ia a lugar nenhum sem me perguntar sobre a roupa. Isso acontecia mesmo quando eu tinha outra empresa, já tive uma empresa de trufas e quase estudei gastronomia, queria ser chocolatier.

No fim eu fiz administração de empresas, trabalhei com marketing, consultoria e inovação. O fato de não ter trabalhado por tanto tempo com o que eu amava, fez com que a compulsão se desenvolvesse, lembra que eu falei que todo o excesso vem de uma falta. Pra mim faltava essa satisfação verdadeira com o meu trabalho.

Mas eu não entendi isso de cara! Porque eu não odiava meus trabalhos anteriores. Eu já amei fazer outras coisas, mas o amor passava, eram paixões. No caso da consultoria, eu amo cada dia mais, a cada novo trabalho que desenvolvo, só pode ser amor.

O entendimento de que o que eu amava mesmo era o modo de vestir, traduzir uma personalidade única e comunicar através da roupa, veio com a compulsão e com a maturidade do meu trabalho. Foi assim que entendi que o que eu amava não era a moda em si, mas ajudar as pessoas a não serem literalmente escravas da moda, a usarem a moda a seu favor.

Inclusive corrijo quase que diariamente as pessoas sobre isso, que a moda é uma ferramenta importante do meu trabalho, mas o foco são as pessoas.

.: Qual erro te ensinou a maior lição {que você pode compartilhar com a gente}?
Fugir do que eu realmente amo, do que pode dar certo e não ter foco. Digo isso por causa do que falei na resposta anterior. Eu gosto de fazer várias coisas e faço bem, então eu cresci nos meus trabalhos anteriores, conheço pessoas que até hoje falam das trufas e também já tive um projeto para estimular vida saudável, tudo isso na verdade era uma fuga.

Eu achava que daria conta de decolar tudo ao mesmo tempo, mas o mais engraçado era que eu fazia as outras coisas darem certo e a Consultoria era sempre o plano B.

Quando eu assumi como plano A, independentemente de qualquer coisa, deu certo.

.: 3 coisas que fazem de você uma mulher do futuro?
1. Empatia, ou uma palavra que conheci e amei – Humanologia. Gosto de lidar com pessoas e saber que cada um é cada um, de ajudar cada um a brilhar do jeito que é. Eu respeito muito as diferenças e na verdade acho que o mundo só é um lugar incrível por isso.

2. Amo mudanças, dizem que é ser resiliente, pode ser. Eu me adapto rapidamente as mudanças. Não sofro nada com isso.

3. Visão do todo. Eu tenho uma facilidade imensa de entender rapidamente as questões de uma forma macro, de ver os impactos e por isso contornar situações. Isso também é um problema, quando não tenho essa visão eu investigo para daí sim começar a agir.

.: Uma grande lição que fez de você a mulher que é hoje? {que você aprendeu e pode compartilhar}
A rasteira que levei de mim mesma, quando fiquei doente.

Tive um problema grave de ansiedade que poderia ter virado um burnout. Abraçar esse problema e entender que eu não sou um robô fez toda a diferença.

Em 2013, mudei de emprego e fui promovida super rápido. Assumi um cargo de gerência, meu emocional não deu conta. Como minha mãe disse um dia, eu sufocaria dentro do mundo corporativo e aconteceu. Eu achei que poderia ser a esposa perfeita, a funcionária perfeita, com uma rotina super puxada, exigente e que não condizia muito com os meus valores, a chefe dos sonhos… claro que caí! Em 2015, fui diagnosticada com transtorno de ansiedade.

O tratamento durou 1 ano e meio. E preciso estar atenta a isso sempre.

Entender isso, que não sou um robô e que não vou construir nada sozinha, fez toda a diferença. Inclusive para eu construir a minha empresa. Mesmo sendo autônoma, tenho uma rede de apoio e parcerias incrível.

.: Que conselho você dá para a mulher que está te lendo e quer aprender a se vestir com propósito, quer saber aproveitar as roupas que já tem no armário. {Mas que por algum motivo, não sabe como fazer isso}
O primeiro passo é se perguntar se tudo que tem ali realmente a representa. Se essa resposta não vier fácil o meu convite é se olhar com mais amor, e avaliar porque o que está no armário não é tão incrível quanto ela?

Lembra do que eu falei, guarda-roupa planejado não tem espaço para peça mais ou menos, tudo tem que ser incrível pra gente.

E, claro, pensar no seu estilo de vida, muito tempo eu guardei roupa de balada porque amava sair pra dançar, eu não faço mais isso com tanta frequência, então porque ter tantas peças assim? Vale avaliar se o guarda-roupa que está ali não foi construído para uma mulher do passado ou para uma do futuro, isso mesmo, se você tem peças pra uma vida que ainda não tem ou que já teve, mas que quer ter.

Respeitar o próprio estilo de vida faz parte desse propósito. Meu convite é que o interior seja refletido no exterior, mas também que tenha mais looks incríveis pensados de propósito todos os dias, já que na minha opinião, todos os dias são especiais, seja de salto ou não. 😉

.: Como você deixa sua marca no mundo? {e de quebra deixa ele melhor}
Ajudo as pessoas a se reencontrarem, se conhecerem melhor, a serem suas melhores versões. E, claro, a contarem de verdade quem são através da forma como se vestem. Eu proporciono liberdade no fim das contas, liberdade de um formato de pensamento, seja ele vindo da infância ou da pressão do mundo! Tem muita expectativa por aí, nossa e dos outros sobre a imagem que precisamos ou que queremos ter. Sabe o que mais vejo que isso causa? Pessoas mais amáveis consigo e com o outro. Eu acredito que quando a gente se ama, se julga menos, acaba fazendo isso com o próximo também. É como se abrisse espaço para o brilho próprio e para o outro brilhar.

Então eu acredito que torno o mundo um lugar melhor assim, libertando as pessoas para serem quem querem ser e de quebra a fazer todo mundo querer que todo mundo brilhe.

Lições que aprendi com essa entrevista

Se você precisa preencher sua vida com alguma compulsão {seja ela qual for} é porque tem algo errado. Você precisa de ajuda.

Entender que você precisa de ajuda é o primeiro passo pra mudar as coisas.

Tudo é um processo. Mas é preciso dar o primeiro passo e continuar seguindo em frente.

Você não precisa trabalhar com o que não gosta de fazer só porque se formou na profissão X. Sempre dá pra começar uma nova história.

Por fim: eu estou vivendo a experiência de passar pelo processo de consultoria da Vivi e, honestamente, está sendo um aprendizado incrível sobre mim. Aprendo sobre roupas, aprendo sobre tecidos, aprendo sobre sustentabilidade, aprendo a me vestir de forma que meu estilo de vida seja respeitado. Mas, aprendo principalmente, que dá pra ser feliz com menos, que dá pra ajudar o pequeno produtor que faz coisas tão boas quando a loja que vende peças de ‘marca’, aprendo que minha roupa diz muito sobre minha personalidade, aprendo que esse processo de moda, consumo, estilo, meio ambiente, lixo, autoconhecimento e minimalismo estão relacionados. Ou seja,  meu guarda-roupa mudou, sim. Mas o maior impacto foi na minha consciência. Por isso, recomendo fortemente que você veja alguns conteúdos da Vivi assistindo um dos vídeos do canal dela, porque cara, na boa, vale a pena mesmo <3 Só clicar aqui.

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