O universo literalmente quis nos unir! Porque nosso encontro não foi coisa do acaso. Um dia, em 2009, recebi um e-mail da Patricia Toni {a entrevistada de hoje}. Ela dizia que tinha uma vaga para jornalista em uma empresa de comunicação que ela trabalhava. Essa era uma época que eu tinha acabado de voltar para São Paulo, depois de longos 4 anos morando no Tocantins. Claro, me interessei. Eu precisava de emprego. Respondi o e-mail com meu currículo e em menos de uma hora já tinha recebido outro, do próprio gestor da agência, marcando uma entrevista. O curioso nessa história é que eu não conhecia a Patricia. Nunca tinha a visto e realmente não sei até hoje como ela tinha meu e-mail. Nem ela! Descobri logo depois que a gente era da mesma faculdade. Eu já estava formada, ela ainda cursava  jornalismo. Eu era da turma da noite {e sou da noite até hoje}. Ela da turma {e da vibe} do dia. Eu fiquei com a vaga da agência, ela estava saindo da empresa. Foi assim, entre uma rápida conversa no meu primeiro dia de trabalho e no último dela, que nos conhecemos.

Dois anos se passaram e outra vaga surgiu. Adivinha quem ocupou?! Nesse momento, muita coisa tinha mudado, a empresa tinha crescido, novos projetos tinham entrado. Nós também não éramos mais as mesmas. Mas íamos trabalhar juntas. Era estranho pra mim, era estranho pra ela, mas ambas estavam dispostas a colocar a mão na massa e fazer qualquer coisa que caísse no nosso colo dar certo.

Somos pessoas completamente diferentes. Eu sou frenética, a Pati é mais zen. Eu sou a guerra, ela o amor. Mas a química foi instantânea porque percebemos que podíamos confiar uma na outra quando o assunto era trabalho. Não deu outra, tudo que pegávamos pra fazer, fluía muito bem. Começamos a construir uma história aqui.

A grande questão é que quando você trabalha diretamente com alguém, você passa muito tempo com essa pessoa. E assim, dia após dia, começamos a compartilhar nossa visão de mundo, nossas ideias, nossas lutas. A gente compartilhava tudo, tudo que pensávamos, mesmo que não entrássemos em acordo, em uma questão ou outra.

Foi aí que eu descobri e presenciei várias fases de uma mulher que vi se formar ao longo de cinco anos. Uma mulher que batalha por causas que eu admiro. Uma mulher de garra, que tenta mudar o mundo através das suas atitudes. Ela não é do tipo que fala, ela é do tipo que faz. Uma mulher agregadora e, principalmente, acolhedora. Aquariana, cheia de ideias na cabeça e disposta a sair às ruas para defender os seus valores, as suas militâncias. Uma mulher sem medo do mundo, dos outros, do futuro e disposta a mergulhar em si mesma sempre.

Uma mulher que erra, acerta, sabe voltar atrás, sabe dar um passo a frente, sabe enfrentar o medo. Que chora, que ri, que canta, que pratica yoga e que sabe amar.

Quis entrevistar a Pati porque ela é uma das pessoas com maior visão de mudança que eu conheço. É uma pessoa que eu tive o prazer de viver, conviver e debater um trilhão de ideias diariamente por mais de 5 anos.

Que ela possa te fazer entender que a empatia é chave pra relações saudáveis <3

.: Você é uma mulher que há muito tempo luta por vários movimentos. Conta um pouco pra gente sobre isso. Nos explique quem você é.
Desde criança sempre me interessei pelo que estava acontecendo ao meu redor. Da minha cidade até o mundo inteiro, me importa entender como as coisas são. A partir dessas características, acabei escolhendo minha profissão, jornalista, e tive mais interesse pelas engrenagens que, em minha opinião, fazem as coisas acontecerem como: a política (essa parece mais um rolo compressor na maioria das vezes, mas não pela política em si, e sim pelos políticos), as religiões e a cultura. Um pouco mais adulta e consciente de que a humanidade é bem mais cruel do que benéfica, as questões sociais começaram a me tocar mais. Comecei a perceber como o machismo mata não só a vida das mulheres, como nossa dignidade e sonhos. Que morre gente de pele preta porque tem pele preta. Que tem mãe indígena que não pode criar seus filhos porque o agronegócio bota fogo na aldeia milenar da sua família. Que na periferia as pessoas são sucateadas, pra dizer o mínimo. Perceber que tenho privilégios por ser branca, cisgênero e heterossexual. Perceber que interesses de empresas, imprensa e partidos fazem de tudo para que essas realidades sejam distorcidas à maioria das pessoas. Enfim, tanta coisa errada e que parecia (parece ainda?) só ficar pior que a vontade de agir meio que explodiu em mim. Meu círculo de amigas e amigos de Poá, minha cidade, sempre teve um histórico incrível de luta contra as opressões, então, foi bem fácil encontrar um caminho para a militância. Em 2009, conheci a Uneafro Brasil, união de núcleos que realiza cursinhos populares em São Paulo e em vários estados brasileiros e movimento social que se coloca firme contra o racismo, o machismo, a lgbtfobia e todas as formas de opressão. Por lá me voluntariei como professora de redação e hoje contribuo com o setor de comunicação da organização.

.: Como podemos fazer do mundo um lugar melhor?
Essa coisa de sempre gostar de saber das notícias dos meus arredores aguçou também a vontade de prestar mais atenção em quem estava do meu lado. O Leon Tolstoi tem uma frase que eu amo muito e que diz mais ou menos assim: se você quer ser universal, comece pela sua aldeia. Acho que é partir daí, do reparar nas angústias de quem divide essa jornada junto com a gente e se importar. Não precisa tentar resolver, talvez você não saiba mesmo. Mas a empatia é tão confortante, é tão acolhedora. Todo mundo precisa ser ouvido, se sentir importante, especial. E esse sentimento de fazer alguém se sentir melhor é transformador.  Esse mundo que nos diz que ser é ter, que o dinheiro é o poder e que é “cada um por si” faz com que foquemos apenas no nosso sucesso pessoal, nas nossas vitórias. Muitas vezes, essas vitórias nunca chegam justamente porque o individualismo rouba nossa saúde, afasta as pessoas que nos amam e nos transforma em pessoas egoístas, amargas. Aí  acaba-se não sendo grato pelas coisas que já aconteceram na sua vida e passa-se a ser um ser humano que não consegue considerar as dores e mazelas das outras pessoas. Um estudo da Universidade de Namur, na Bélgica, mostra que pessoas muito materialistas são menos felizes porque são menos gratas pelas coisas que já possuem e isso diminui os níveis de satisfação delas com a vida. Acho que, em resumo, é ser grato pelas coisas que acontecem (mesmo as ruins, porque essas são as grandes professoras) e nunca perder a oportunidade de ajudar alguém a passar com mais leveza por uma angústia. Isso reflete ao seu redor e vai crescendo, uma onda que toma conta. As coisas dão mais certo para você porque você canalizou sua atenção para mais alguém além de si mesmo, aprendeu com outras histórias, olhou sua vida de fora, aprendeu a dar mais importância para pequenas coisas, tem mais clareza para resolver problemas porque os enxerga de outra perspectiva. É mágico!

.: Quais as pequenas atitudes do dia a dia que podem transformar o dia de outras pessoas?
Acho que essa resposta vai ser um complemento da anterior. Ter mais empatia é o que eu tenho compreendido, aos quase 30, como a atitude que transforma. E nem requer grandes habilidades, você não precisa falar aquele grande discurso que vai mudar a vida daquela pessoa. Escutar um desabafo sem interromper, oferecer um abraço,  poder ajudar com o que está ao seu alcance já é suficiente. E, sei lá, não olhar com repulsa quem não tem os padrões de vida que você acha que são os corretos ou não se achar superior por diplomas, grandes formações, criações privilegiadas. É um exercício diário, até hoje o que rola é um plano para sermos cada dia mais egoístas. Mas olhar cada pessoa que passa pela nossa vida como importante, acho que é um bom caminho.

.: Jornalista, fã de yoga, meditação, música e amigos. Na sua visão de mundo, o que é necessário para deixar a vida mais leve? Como você vive e como inclui tudo que gosta na sua rotina?
É preciso cuidar de si. Cuidar da saúde, escutar as dores do corpo, procurar a melhor maneira de curá-las e preveni-las, cuidar da mente, fazer terapia, ter momentos de lazer, fazer atividade física, fazer alguma atividade artística (descobri que todo mundo tem a sua), partilhar de companhias que te façam bem. Somos condicionados a pensar que doença é coisa de gente fraca, terapia é coisa de louco quando, na verdade, o sinal maior de saúde é identificar pontos que estão travando nossa vida e perceber que precisamos melhorá-los. Acho que muitas das minhas indignações se dão porque é visível que uma parcela pequena das pessoas tem acesso a essa informação e, sobretudo, a esses cuidados. Pra mim, isso devia ser um direito de todas e todos.

.: Qual erro te ensinou a maior lição {que você pode compartilhar com a gente}?
Entendi que nem sempre vou conseguir dar conta de fazer todas essas coisas que falei aí em cima. Por uma série de fatores como obrigações com estudos e trabalho, problemas pessoais, mas também porque vão existir momentos em que eu não vou ter paciência, não vou ter disposição, simples assim. E tá tudo bem também! Ninguém tem que ser assim o tempo todo, todo mundo precisa de um tempo pra respirar, pensar, sentir raiva, chorar, não pensar em nada. A cabeça pira e o corpo trava se a gente não permite o florescer desses sentimentos que também são parte de nós. Acho que a questão é só encontrar aquele equilíbrio e não atrapalhar a vida alheia, já que nem sempre se está em condições de ajudar.

.: 3 coisas que fazem de você uma mulher do futuro.
1 – Não ter medo do autoconhecimento.
2 – Tentar agir contra injustiças.
3 – Tentar aprimorar sempre minhas características na comunicação para poder transmitir mensagens com clareza.

.: 1 grande lição que fez de você a mulher que é hoje {que você aprendeu e pode compartilhar}.
Que tem muita gente muito a fim de fazer do mundo um lugar de mais respeito e amor e que é preciso exaltar e dar valor para essas pessoas. Porque todo esse reconhecimento volta para você em um ciclo de gratidão que só te move pra frente J

.: Como você deixa sua marca no mundo {e de quebra deixa ele melhor}?
Hoje, uso meu trabalho como comunicóloga para ajudar movimentos e coletivos a organizarem suas atividades e pretendo, no futuro, ser alguém que vai de fato ter o papel de realmente mudar a realidade dessas pessoas.

Reflexões que tirei dessa entrevista
>> Busque se relacionar com pessoas que realmente entendem o que é empatia. Precisamos ter gente do bem perto da gente.
>> Está inconformado com algo? Comece mudando pequenas coisas ao seu redor. Revolução começa dentro da gente.
>> Tenha tempo pra você. Se desconecte mais. Reflita sobre o que te faz e o que não te faz bem. Quando a gente se conhece profundamente, é mais entender qual a direção queremos pra nossa vida, quais áreas podem ser melhoradas dentro de nós e o que precisamos fortalecer.
>> Você não precisa carregar o mundo nas costas. E tá tudo bem!

Este texto faz parte da série “Mulheres do Futuro”. O objetivo dessas entrevistas é contar a história de mulheres incríveis, que trabalham com coisas completamente diferentes, que possuem um senso de mudança arrebatador. Mulheres que desejo ver cada vez mais num futuro bem próximo. A cada semana, vou contar a história de uma delas e, espero de coração, que elas também possam te inspirar a correr atrás dos seus sonhos.

Todas as entrevistas serão em formato ping-pong (pergunta e resposta). As perguntas são bem parecidas para quase todas. E a ideia é essa mesmo, observar a perspectiva de resposta de cada uma de acordo com o seu mundo.

Quer receber um material bacana e que realmente te ajude na geração de conteúdo nas redes sociais?

Cadastre seu e-mail {e óh, fica tranquilo, a gente só manda o que gostaria de receber também. Respeitamos o seu espaço}.